sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Avesso


Um dia ela se permitiu.

Criou um príncipe.
Tão real quanto inventado.

Não pense você que era um belo príncipe, que chega em armadura dourada, cabelos ao vento, montado num cavalo branco. Valente. Cheio de virtudes principescas. Não, realmente ele não era.
Desajeitado.
Inconformado.
Orgulhoso.
Irresponsável com o que lhe pertence.

O príncipe não tinha voz. Dizia lindas palavras em uma língua sem som. Ou não? Ela não reconhecia o som do seu silêncio.
Ah! O príncipe era um fanfarrão. Brincava com fogo.
A elegância real transformava-o tão mesquinhamente mortal.
Estendia as mão num cortejo cheio de mesuras, tão travesso que ao tocar os dedos dela retirava as mãos muito rápido para ver-lhe o tombo. Se ria? Não sei, de certo sim.

O Príncipe, cresceu. Cresceu e tomou dimensões. E as semelhanças eram a ponte para o futuro e lugar nenhum.
Seu domínio.
Terreno tão vasto e virgem que apontava o horizonte e tomava para si onde os olhos tocassem.
Tomou posse.
Dono do dia, senhor da tarde, magnânimo da noite.
Tomava-lhe as horas, os dias, a mente e o ser.

E ela o seguiu.
Seguiu na ânsia de atravessar a ponte.
Deu um passo, o príncipe se assustou deu salto para trás, a ponte balançou, balançou e voltou a ficar firme. Mais um passo... as tábuas estalaram, covardemente o Príncipe voltou correndo ao início e ela tão certa que o outro lado era seguro, o Príncipe ameaçou outro passo e mais uma vez retroceu. Pacientemente ela esperou no meio da ponte.

Ali, parada parecia tão frágil.
Divertiu-lhe a ideia de vê-la em pedaços. Muitos pedaços. Já não lhe servia mais, ela lhe cansou, exigia-lhe muitas palavras, muito lembrar, muita simetria, exigia-lhe muita doação. Ele Príncipe, não se dava, não se redimia, não pedia desculpas e se igualava a reles mortais.

Ela ali.
Ela no meio da ponte.
Lhe sorria e lhe chamava.
Se oferecia e se doava.
Ela ali.
Abria mão da sua paz.
Lhe convidava.
O outro lado.



O príncipe sorriu e ela lhe sorriu de volta, certa de que ele daria um passo a frente. Num gesto já ensaiado muitas vezes em sua covarde bravura, sacou um punhal e de um golpe rápido, muito rápido cortou as cordas da ponte.

Ela caiu. Caiu de muito, muito alto. Já caiu em pedaços, em cacos, em pó.
Nada.
Vazio.
E fim.

2 comentários:

  1. Que triste... o pior é que as coisas - sem ser por metáforas - são assim mesmo. Tomemos cuidado com príncipes desajeitados e orgulhosos!

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  2. Corri atrás desse texto por ter lido no seu blog que havia ganhado um prêmio.

    Gostei muito do estilo misturando a prosa e o verso.

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