terça-feira, 8 de janeiro de 2008


          Posso fazer uma lista de pessoas que de alguma forma marcaram minha vida. Umas de forma positiva, outras nem tanto, mas que tiveram, em algum momento, sua importância, seu ensinamento, seu germenzinho na minha trajetória. Tipo 5 pessoas que você encontra no céu (rs).
           Mas quero abrir o espaço para falar da primeira ilustre desconhecida na minha vida. Primeira porque por ordem de chegada realmente é uma das primeiras. Parte do meu nome é culpa dela, embora, eu não goste dessa parte e resolvi abolir... mas está lá registrado, porque era de desejo dela.
          Dona Maria de Lurdes Matias Mota. Perdida numa cidadezinha, que acredito não existir nem no mapa, Maristela, Distrito de Laranjal Paulista - SP. O sangue indígena que acredito piamente que corria em suas veias era totalmente visível, não só na sua fisionomia, complacência física quanto no temperamento reservado e observador.
        Lembrando hoje da minha infância noto o quão importante foi a presença dessa pequena grande guerreira. Lembranças doces como devem ser as lembranças dos netos. Quando sabíamos que ela viria em nossa casa, coisa que acontecia com raridade, pois ela quase nunca deixava a sua, já sabíamos que aquela sacola de feira viria cheia de coisas gostosas e que a gente iria ficar aboletados nela o dia todo, porque ela nunca passava a noite fora de casa.
          Passar férias com meus avós era um doce martírio, era obrigada a tomar uma gemada por dia, ferro, "Biotônico" com ovos de pata e etc, devido o tom amarelo português da minha pele e por ser magérrima, eles sempre achavam que estava anêmica, porém, me submetia a esse sacrifício pelo prazer de ser criança de verdade, e soltar todas as galinhas do galinheiro, e quando ouvir ela gritando comigo, e Sr Mané Mota já esperava com o portão aberto para que desse tempo de eu escapulir para a rua antes que ela me alcançasse.
          Silenciosa, porém, hoje a coisa que mas me faz lembrar-la é a risada. He He He He, mesmo hoje se perguntar para minha filha que conviveu muito pouco com a Bisa, o que ela lembra é justamente da risada. A forma dela brigar com as atrizes da novela porque num dia estava beijando um agora está beijando outro.
          Dona Lurdes como era chamada, muito conhecida na comunidade, era a benzedeira do povoado, recebia sempre, sem reclamar uma única vez, todas as pessoas em seu altarzinho, sem distinção.
          Em ocasião da morte de meu avó, senti necessidade de dizer o quanto eu a amava, e quando a abracei e disse, me olhou nos olhos como que me dizendo “ Que bobagem que você está falando?…..” e disse que também me amava. Não esqueço sua expressão, me marcou muito, pois essa expressão me dizia que não podia ser diferente.
           Teve câncer há mais de 10 anos e veio a falecer há 1 ano atrás, mas acredito que ela nunca teve a dimensão do que era a doença, na sua inocente humildade, o que também acredito que essa ignorância foi o que a fez com que tivesse uma vida normal até o final.
           Há um ano quando caiu doente e entrou em coma, meu pai me disse para ir vê-la uma ultima vez, eu não quis ir, queria guardar todas as lembranças agradáveis sem me lembrar dela na cama inconsciente, no entanto, depois de muito pensar resolvi ir. Lá estava ela “dormindo”, respirando com dificuldade e febril. Sentei-me ao seu lado na cama, pus minha mão em seu braço e disse tudo que eu queria que ela soubesse. E acima de tudo que eu morria de orgulho de dizer “ Sou NETA da Dona Lurdes”. De alguma forma eu sei que ela me ouvia, e que me respondia, senti em determinados momentos que a temperatura se normalizava. Agradeço muito por ter ficado sozinha com ela naquele momento e ter conseguido lhe dizer tudo aquilo antes de partir. E partiu naquela mesma noite.
          Outro dia tive um sonho, em que alguém me entregava uma caixa, tipo um bauzinho e me dizia “ Você veio buscar o que a sua Vó te deixou?”, eu sabia que não poderia ser nada material, ela não tinha posses, nem a mecha de cabelos brancos na franja pois essa já se manifesta, mas um dia ainda vou descobrir o que é porque provavelmente está em mim.
          Deixo aqui minha declaração de amor, esteja onde estiver. E no mais tudo em paz.


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