terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Marcas no lençol

           Corroídos as mãos se uniam num laço, nó. E se buscavam e se perdiam.  O todo.
       E buscava registrar o movimento de cada pinta de suas costas num desenho lógico memorizado. Guardar memórias. Elas fugiam-me todas e partia numa procura alucinada por registrá-las com a língua pois os olhos se fechavam negando-me a fornecer pistas e me afogar em seu mar revolto, em sintomas de ressaca.
           Gosto. Palato e saliva. Procuram o percurso do suor em seus caminhos. O doce  sal no líquido do seu peito. Mamilos e pêlos. O suspiro rogava-lhe em preces e gemidos que botasse fim à esse suplício. Mas as mãos buscavam e percorriam o dorso em elevações e depressões de suas carnes vibrantes. Cala-te. Os ouvidos já não ouviam os sinais do corpo, que minhas águas represadas rompiam os limites do estar em mim.
           As pernas, correntes, me prendia e já cativa não buscava fugir. Perder-me. Enquanto as palmas tateavam o escuro em busca de conter a vida que me pulsava na palma. E gritava. E exigia do ar que lhe arfava o peito.  Os membros todos tesos, tensos e irresponsáveis.
           Angústia de nós. Divididos pela cicatriz do umbigo. Tentar a todo custo tornar a ser Um. E tú sobre eu. E eu sobre tú e a ânsia de nós. E a ânsia de te ser e a ânsia de me ser... assim apertados estar e fenecer.
           Silêncio. Não diga nada. As marcas no lençol cúmplice da quase morte da entrega. Tomo-me a vida instantes para retornar disperta e me recolher em partículas dispersas.

domingo, 13 de novembro de 2011

BOCA

Elegi mais uma vez.
Agora você vai me dizer: "Não jurou não mais eleger?"
E me vi com as promessas que fiz e não cumpri. E não cumpri porque me exigiam demais e não aceito cobranças.
Aí me diz: "Disse que queria ser elegida de agora em diante. Conhecer da eleição o sabor do ser querida. Isso é contradição e você odeia contradições."
E me vi novamente controversa. E o que é ser contrversa além de me ser pelo avesso? E o que é o avesso além  do EU pelo reverso da mesma moeda?
E vem você e me diz. "Passado?"
Não... jamais será passado, porque ainda me é. E me lembra. E ainda me sou consequencia. Não se sinta abandonado porque quero eleger, porque elejo para me manter acesa.
"Mas você se extingue em sua própria chama."
Não faz mal, porque assim me sinto viva. Mesmo que finita, mesmo que breve, ainda assim viva. Quero ter o direito de me escolher acima da corrente vital que atende pelo nome de Cronos.
Ahh me deixa ser. E me deixa precisar.
Preciso boca adentro, porque tudo é fome e eu sinto tanta fome.
E me elejo BOCA.
Para te eleger toque, língua e saliva. Ou beijo e paladar. Ou o sabor metálico do sangue ou o doce fluído que te escorre.
Ah queria te gritar. O grito também é boca.
E o beijo é boca. E o sexo é boca. A palavra é boca. Fome é boca. Carinho é boca. Amor é boca. Ruína é boca. Bendita é boca, Maldita é boca.

E hoje eu Elejo.
E você vai me dizer: "Jurou não eleger."
Mas não ligo para o que pensa, pensamento não é boca.
E hoje só elejo BOCA.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Há palavras que excluo do meu conteúdo léxico para escrever, amor, sentimento, flores, beijo, alma, acho, algumas as quais reluto em usar, salvo em ocasiões onde não tenho sinônimos adequados.
Mas...
Estive pensando na palavra Amado(a). - Amo essa palavra nessa forma.
O que seria a palavra Amador(a)?
O Sujeito que exerce o verbo Amar? Ou um eterno Amador(a).
Mas aí não cai naquela tirania de que toda frase tem Um sujeito que provoca um verbo acarretando o predicado? Se é que há predicados depois, pois leva à: Todo sujeito provoca uma ação (provoca = tem culpa de...)?
Enfim...
Não sei.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do toque

Tocar verbo imperativo

Quem nunca se imaginou máquina?

Atire o primeiro pendrive quem nunca o fez.

Mas quem um dia sonhou em ser humano? Se esconder atrás da máquina. Braços de ferro, pernas metal, fluídos ausentes. E alguns parafusos faltando.

Desculpe revelação tão bombástica. “ Máquinas não existem”. São fantasias vestindo os homo sapiens.

Toco minha máquina. Sinto na ponta dos dedos os pressionar das teclas, frias e leves. E sempre dela tento arrancar toques a golpes sistemáticos. Gosto dos teclados de teclas curtas, a pressão menor dos toques precisos. Aprendi a arrancar palavras dos toques dos dedos, porque antes me tocaram o sentido oculto.

A roupa toca a pele, que habituada ao contato já não sente.

Aprendi o toque do sexo. Aprendi depois que o toque antecede o sexo, não o contrário.

Dos meus filhos aprendi tocar incondicionalmente. E que esse toque existe por si, não advém de nada. Perdemos os filhos quando desaprendemos tocá-los e se maquinizam.

Dias desses toquei os olhos numa amiga e qual minha surpresa quando ela tocou os dela em mim também.

Um dia no meio da cozinha ele parou, estava saindo, mas puxei-o com meus braços invisíveis que o fez virar abruptamente e me tocar com seus olhos. Eu precisava ser tocada assim.

Arte do toque. Exercida, exaurida e reconsumida. Devia-se ensinar a tocar na escola. Matéria de suma importância.

Abracei minha mãe ontem, ri quando percebi que a cabeça dela alcança exatamente a altura do meu peito e me lembrei que já tive essa exata altura no peito de alguém e ouvia o toque do músculo rei. Minha filha adolescente agora precisa do ombro cresceu o bastante para alcança-lo e tocá-lo com suas lágrimas quentes de primeiros amores.



Desmagnifico o homem que se maquinifica.

Foto http://www.fotoblur.com/images/297237

domingo, 2 de outubro de 2011

Vem

HILLS by Filippo CIOFALO

Fecho os olhos
Enquanto me assombra;
(Digo Vem)
Em noites que outros corpos,
Tomam posse desse corpo.
Seus olhos,
Claros dos escuros
Profundos, me seguem.
Me chamam.
De iguais sentidos.
Olhos fechados,
me vendo (ambíguo)
Assim te vejo.
Em curvas e pousos.
Toma-me de igual e vem.
Onde alegria trama.
Pêlos e braços.
Mãos e encalço.
Da língua a saliva.
Viva.
Vem.
Dos corpos um.
Como dos olhos escuros-claros.
Toma posse e palavras sussurradas.
Encontros,  ventre.
Garras.
Renda-se Tempo.
A curva do seu pescoço se faz necessária.
Caminhos,
Rios.
Flor.
Cariñ(h)o

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Há tempos não vou a Saturno.
Sinto falta de seus anéis.
A Terra é um lugar frio.
Habitada escandalosamente desumanda.
Laçar qualquer cometa não seria suicídio.
Só quero os anéis.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pés no chão

Fico feliz quando o vejo oa janela do meu carro. Ou quando tenho de pular suas pernas estendidas impedindo o caminho, sentado no chão de uma calçada  rachada, áspera e engrecida quanto seus pés.

O doido da rua.


Dos meus tempos de criança tenho solidárias lembranças de sua sanidade, que guardo mais por mim do que por ele, um chamado para um "você ainda está aí" e de um passo, um tropeço e o Doido da rua.

Quem era?

O que lhe corroeu o juízo? Não sei. Uma lenda. Construo hipotéticamente as mais diversas situações de infortúnio que o abraçaram de delírio.

Sorrio.

Parece feliz e inocente na sua desaventurança. Teria encontrado ali o pouso do consolo?

Temo perdê-lo de vista.

O doido da rua.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vai.
Que te sinto indo.
Vai que o que eu precisava para a espera já me disse.
Sinto que não está em você.
Só me diga as vezes que está em mim,
Um [acaso] para me sacudir.
Para que eu me sinta em você.
Vai
(não me abandone)
Eu estou aprendendo a não te precisar.
Vai e me respira as vezes de perto.
Para que não incorra no pecado,
de transformar a ausência em mágoa.
Vai e me cuida em você.
E me volta inteiro.
[que estou te sendo]
Ainda que ferido.
Mas te (me) devolva

.

domingo, 25 de setembro de 2011

Desesperada corre para o espelho e diz:
"Dá-me mais beleza"
Em resposta lhe disse:
"Mais beleza lhe afastaria do que deseja."
"Mas então por quê não tenho o que desejo?"
"Porque seu inimigo não sou eu é o tempo."
  Foto by ( José de Almeida & Maria Flores )

sábado, 24 de setembro de 2011

36

Começando minha Dezembrite.

Há verdades incontestáveis as quais não consigo aceitar. Eu tenho quase 36 anos.
Como uma roupa que não se ajusta ao corpo, sentada na mureta do estacionamento tenho os mesmos olhos perdidos de espera de há 25 anos.

Uma criança. Uma contração involuntária exigindo alimento [fome de mundo]. Ávida buscando o seio, seguindo o cheiro de boca aberta e salivante, porém, de olhos fechados. Não posso conciliar certos sentidos.

De olhos cerrados desfruto dos sentidos, sentido, tomando o leite como surpresa. Raquítica, me mantenho sobre pernas secas e tremulantes de deficiencia, magreza, os olhos saltados típicos da fome e cada alimento um orgasmo, delírio.

Não me alimente de uma vez, não suporto. Sou carente. Gota a gota.

Não comporto meus 36 anos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Jogo

Penso que vou viver de uma alegria inventada.
Cantando a canção errada.
Brincando a brincadeira desaventurada...
Enganando os sentidos.
E aguando o desejo.
Desconfiando de seus instintos.
Dos meus.
Em nossos.

Ah eu vou viver da fruta mordida.
Da da gota entre seus seios.
Ah vou retomar estradas perdidas.
Do manto suave dos seus cabelos.
Cintilando entre meus dedos.
A vida que não temos.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sem título (assim)


Talvez me queira no hoje;
                 ou amanhã.
Talvez me queira,
Num querer sem espaço.
    sem tempo.
Talvez encontre imutável.
Talvez carcomida.
Enrigecida.
        [Talvez encontre engessada]
Louca;
"Santificada"
(gritando impropérios;)

Talvez encontre sem frestas;
Hermética.
Ou talvez.
Encontre livre.
Num assim estar.
Irreconhecível.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Moeda

És o novo e o antigo.
Todos meus acessos.
Meus avessos.

Toma minha mão.
Guia cega em meus reversos.

Me tira daqui.
Dessa casa desabitada,
    [dentro de mim]

Me guia.
Me ensina a luz do dia.
Seus escuros são meus.
    [entre os dentes.]

Não importa clandestino.
    [não marginal]
Mesma moeda.
Desatino.

Habita-me.
O mesmo.
    [inverso]
Signo.
Avesso.
    [Acesso]
    (In Verso.)

domingo, 28 de agosto de 2011

Explosão

Me expando.
Assim numa explosão cósmica.
Um big bang..
Numa contração cardíaca.
Conversão.
Convergencia.
Conter à conta gotas.
O que não cabe aqui.
O que os olhos não alcançam.
Controverso.
Silencio.
O Silencio.
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Gosto da minha vida monocromática.
Gosto da vida prática preto no branco.
Reservo as nuances coloridas para coisas do sentimento. Para os surtos felizes.
Há tempos não acredito no misticismo.
Há tempos só acredito no que é palpável.
...Há tempos tenho os pés na descrença.
No entanto, minha busca é no além EU.
No além mundo.
No impalpável.
Eis o dilema.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Diga como disser, mas diga.

Amo vocabulários.
Amo formas de dizer.
Adoro o Radical.
A maioria dos meus amigos tem uma forma toda particular de falar.
E cada qual tem um discurso próprio. Reconheço deles cada forma de formular sentenças.
Isso me encanta. Aliás encanta é uma palavra do vocabulário de um amigo espanhol.
Há um amigo que o não na frase fica por último, o que dá um ar brejeiro no que diz e adoro isso.
Uma amiga é incisiva no que diz, bate feito ferro, mas me tira do meu estagnar.
Outra é de uma levaza tal que tenho que procurar na sua poética o seu sentido.
Um amigo é tão presente que sinto o calor solar no seu falar.
Outro me traduz o medo.
E um sacana que só me diz da forma mais terna que existe o quanto sou única.
As nuances do que é dito é o real sentido que posso ver.
Se tirarem de seus vocabulários algo posso me perder no que dizem e me emaranhar num labirinto sem fim.
Ouço suas vozes em bilhetes.
E ouço cada um deles de forma ímpar.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Revirei albuns antigos à procura de passado.
As lágrimas fugiram lentas.
Chumbo fundido sobre a face.
Num último suspiro limpou meus porões.
Incontido o grito de espanto.
Quando atacadada pelo sentimento,
De nada.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Remetente.



Hoje te escrevi.
Em papel pautado.
Simétrico.
Fluído.
Poéticamente perfeito.
Construído.

Ao enviar.
Perdi.
Palavra a palavra.
Grãos de areia.

Queria remeter.
E tive de reconstruir.
Não havia “re”.
E escrevi.
Bruta.
Dura.
Como sempre fui,
Ainda carvão.
O mesmo texto.
Em outras palavras.
E disse.
Na poética imperfeita.
Tão lógica.
Quebrável.
Me ensina,
Ainda sou criança.
Não sei como ser livre.

sábado, 6 de agosto de 2011

Entes



Entes.
Me deixa viver na sua ardencia.
Dividir das semelhanças.
Distantes e ausentes.
Homogêneo em brisas quentes.
Leves e líquidas.
Mariposa e lamparina.
Tocar no sopro a curva da sua cintura.
Te ouvir nos rodopios do riso.
Entes.
Em tese um lar.
As rimas do verso livre.
Diferentes.
Claro e escuro.
Dicotomia.
Entes.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Crime

Queria escrever um poema.
As palavras me fugiram.
Debandaram.
Partiram em procura.
Foram levadas embora de uma única vez.
Deveria ser crime roubar a palavra obscenamente.
Fica decretado crime o roubo das palavras dentro.
Decretado crime a ausencia dos motivos a outrem.